CRIANÇAS SOBREDOTADAS

CRIANÇAS SOBREDOTADAS

 

                                                                                                                                Elaborado por Danilo Carvalho

 

 

INTRODUÇÃO:

 

Em todas as sociedades e em todas as épocas se observam crianças que parecem aprender mais depressa; que se lembram de mais coisas, e que resolviam os problemas com maior eficiência que as outras. Estas eram as crianças sobredotadas.

Cada vez mais, estas crianças têm despertado um interesse significativo nas sociedades.

Conta-se que Albert Einstein dizia.” Não possuo dotes excepcionais, sou apenas extremamente curioso”

Em, 1889, estudava num internato de Munique um rapazinho de 10 anos que, tendo já sido reprovado várias vezes, não era considerado bom aluno pelos professores e demonstrava apenas talento para o violino. Para esse menino “ a fantasia era a mais importante que o saber” e, como disse mais tarde, “os métodos educativos estrangularam nele a sagrada curiosidade  de pesquisador”

Nunca tendo sido considerado um génio, Albert Einstein foi o criador da teoria da relatividade que revolucionou o estudo da física e lhe proporcionou o Prémio Nobel.

Os seus resultados escolares foram sempre fracos e a nota final do Curso de Física não foi brilhante. No entanto, no fim da sua vida, tinham-lhe sido atribuídos 25 graus de doutor “honoris causa”

Extremamente modesto, atribuía o mérito das suas descobertas à extraordinária curiosidade e espírito investigativo. Contou  a um amigo que a ideia da teoria da relatividade tinha surgido da formulação de duas perguntas: “Como se comportam as leis da natureza num elevador em queda livre? “ e “O que acontecerá se eu correr atrás de um raio de luz e o conseguir alcançar?”

O conceito de sobredotado é complexo e pouco definido cobrindo uma grande variedade de características e capacidades.

Por vezes essas características podem causar dificuldades na comunicação das crianças sobredotadas com as outras e até com os adultos. Por exemplo:

Uma criança que esteja extremamente concentrada num interesse ou actividade específica pode ser considerada “distraída” porque não “ouve” o que o adulto lhe está a dizer e que nada tem haver com o motivo da sua atenção.

A criança que quer aprender, explorar e procurar mais informação pode ser considerada “impertinente” ou “barulhenta” – “À mãe não me diz porque é que tenho de comer a sopa, o que põe na sopa e como o faz. Só me diz coma a sopa , João!”

Uma criança com elevado grau de curiosidade e observação pode Ter aparência de “agressiva” ou “bisbilhoteira” quando tenta descobrir qualquer coisa que lhe chamou a atenção – por exemplo, quer saber como funciona o relógio e abre- o . O professor ralha com ela por estar a estragá-lo e tenta tirar-lho. Ela irrita-se e atira com o relógio ao chão.

As crianças sobredotadas , como se sentem diferentes das outras, têm dificuldade em encontrar pessoas com quem se relacionam. Podem causar sentimentos de inveja às menos brilhantes e, por vezes, suscitam mais o receio do que a amizade. São frequentemente considerados crianças ou jovens desajustados socialmente.

 

 

I. SOBREDOTAÇÃO OU SOBREDOTAÇÕES?

 

Durante muitos anos foi aceite a definição de sobredotado exposta por Terman em 1925, no 1º volume da sua obra Genetic studies of genius. Um QI igual ou superior a 140 na Stanford- Binet ou noutra escala de inteligência semelhante (habitualmente nas escalas de Weschler), era o critério considerado. A partir da Segunda metade da década de 60, as mudanças incrementadas no seio da psicologia e nas políticas educativas, dão orientações diferentes e diversificadas às investigações da sobredotação que, no entanto, não são acompanhadas por princípios pragmáticos de definição e identificação destes sujeitos.

Não tem sido pacífico a definição da sobredotação, existem muitas confusões geradas pelas discussões contínuas em torno das relações que estabelecem entre inteligência, criatividade e aptidões específicas.

 

 

A .    Percepções socioculturais acerca da sobredotação

As diferentes épocas históricas apresentam conceitos distintos de sobredotação, que reflectem as mudanças na “ideologia” e cultura dominantes, cada uma delas valorizando actividades humanas distintas, de acordo com as necessidades sociais. É com base nessa “grelha” social que se distingue o sobredotado da mera curiosidade ou facto curioso. Por exemplo, o saber localizar em que dia da semana ocorreu um determinado acontecimento, pode não ser relevante na sociedade contemporânea dominada por sistemas de informação sofisticados, no entanto poderia revelar-se uma capacidade excepcional numa sociedade com escasso recursos técnicos.

Neste sentido, assume-se que o estudo da sobredotação não pode ser separado do contexto social em que se insere. Como iremos ver, já em seguida, as variações no conceito, dependem da extensão das aptidões ou comportamentos que são considerados (ciência, arte, liderança, etc.) e/ou do grau em que essas aptidões ou comportamentos se manifestam (genialidade ou executor exímio)  A ênfase concedida aos diferentes métodos de identificação (potencial versus desempenho), também constitui um factor decisivo nas reformulações sucessivas do construto. Ou seja, sobredotado é aquele que apresenta um bom desempenho ou tem provas dadas de genialidade, ou é aquele que obtém um escore elevado em teste de inteligência (QI), sendo este resultado interpretado como prova de potencial excepcional. Neste contexto, faz-se habitualmente a distinção entre sobredotado na idade adulta e sobredotação na infância (Terrassier, 1994; Shore e KanevsKy, 1993)

Nas sociedades humanas mais primitivas, o sobredotado seria o astuto na caça e na pesca, permitindo-lhe uma adaptação eficaz ao meio. Os seus dons extraordinários eram vistos como algo que transcendia os processos mentais comuns e eram o resultado da benevolência divina: pessoas divinamente inspiradas. Alguns desses indivíduos atingiram o estatuto de deuses (Grinder, 1993)

Na Grécia e na Roma antigas, a sobredotação continuou a ser qualidade humana venerada e as relações com o sobrenatural mantiveram-se. Na Grécia, Platão defendeu a ideia de que os indivíduos com inteligência superior, oriundos de todas as classes sociais, deveriam ser seleccionados nos seus primeiros anos de infância e as suas capacidades cultivadas em benefício do estado (Terrassier, 1994)

Na idade média, a sobredotação é ainda encarada como algo transcendental, mas pouco ou nada valorizado, pois é um produto das forças do mal. Os processos naturais são interpretados no âmbito das doutrinas da lei canónica e as capacidades excepcionalmente brilhantes excedem limites estreitos impostos pelo dogma cristão. O sobredotado será o herege, aquele que está sobre a influência das forças do mal, possuído pelo demónio.

Na Renascença a opinião pública acerca dos sobredotados melhorou. Contudo, não foi vista como um traço inteiramente positivo. A excepcionalidade (os génios, os sábios, os grandes cientistas) passa a ser explicada em termos psicopatológicos, tendo subjacente um processo neurótico. Acreditava-se que cada indivíduo era provido de uma certa quantidade de energia, que não deveria usar demasiado depressa. Quando isso acontecia, como no caso das crianças sobredotadas, havia o perigo de conduzir à insanidade mental. Nesta acepção, qualquer desvio em relação à norma, ainda que fosse no sentido da genialidade, era indicador de instabilidade mental.

A abordagem renascentista da sobredotação (genialidade), assume uma importância particular no século XIX.

A relação entre loucura e talento continuou a fascinar os investigadores ao longo do século 20 (Cox, 1926; Ellis, 1926; Bowerman, 1947) e constitui, ainda, uma temática contemporânea. A controvérsia está longe de chegar ao fim. Assim por exemplo, Karisson propõe a origem genética da criatividade e defende que os genes responsáveis pela predisposição para esquizofrenia são os mesmos que “codificam” a competência criativa. Ellenberger fala-nos da “doença criativa” (creative illness), cujo quadro clínico seria caracterizado por preocupações intensas e procura constante da verdade. PicKering adopta uma terminologia semelhante ao referir-se à “creative malady”. Por seu turno, Claridge também defende a relação de covariância entre psicopatologia e a genialidade, mas preconiza um quadro nosográfico específico para os diferentes domínios do talento. Por exemplo, os talentos na área das letras terão maior propensão para desenvolverem episódios psicóticos. Baudelaire, Rousseau, Schopenhauer e Balzac, constituiriam exemplos notáveis.

Com o aparecimento da escala métrica de Binet, em 1905, marca uma viragem no historial da sobredotação. O foco da definição passa da realização para o potencial do seu estudo é inserido no âmbito da psicologia diferencial. Até aqui a metodologia de análise tinha sido essencialmente retrospectiva, com sujeitos adultos e com grau elevado de excepcionalidade, manifestados nas suas criações. A partir de agora, os testes de inteligência dão a possibilidade de identificar o potencial e redimensionam o campo da investigação, alargando-o às crianças e permitindo uma metodologia longitudinal. Com a adaptação do teste de Binet à população norte-americana (Stanford-Binet), está estabelecido um método fácil e preciso de identificação da população sobredotada. Dentro dessa corrente, pressupõe-se a condição inata da genialidade, defende-se o carácter monolítico da inteligência (factor G), e o desempenho nas escalas de QI (que deve ser igual ao superior a 140) aparece como factor determinante da identificação.

A partir da década de 60 assinala-se uma nova viragem  no estudo da sobredotação, marcada por uma ampliação gradual do conceito. Reconhecem-se as limitações dos testes de QI, procede-se a novas reconceptualizações da inteligência (abordagens multifactoriais, hierarquizadas ou não) e recorre-se a novas metodologias, nas quais a tónica deixa de ser ao nível dos resultados para se centrar nos processos.

As grandes mudanças foram operadas, entre outras, por Guilford e, posteriormente, Piaget, Gardner e Sternberg. A inteligência é vista numa perspectiva multidimensional (plural), na qual são incorporadas a criatividade e diversos componentes não-intelectuais, de ordem motivacional e personalística, tais como a persistência, a auto-confiança, e a coragem de correr riscos. É assim que o modelo de Guilford (1967) a criatividade se assume como uma variável importante (particularmente um dos seus aspectos, o raciocínio divergente) e que Gardner (1983, 12995) deixa de falar em inteligência para se referir às inteligências: lógico-matemática, linguística, espacial, musical, cinestésica e corporal, interpessoal.

Também nesta década, a investigação com a população sobredotada deixa de ter apenas importância teórica e direcciona-se com mais ênfase para a prática educativa. Este interesse é mais notório nos Estados Unidos, tendo sido despoletado pelo lançamento do primeiro satélite soviético no espaço (sputnik, em 1957). Tal facto, agudiza a rivalidade entre as duas potências e faz despertar as autoridades americanas para a importância da formação dos seus recursos humanos (Reis, 1989; Deleon e Vandenbos, 1993).

B.     As correntes actuais

A dilatação progressiva do conceito, introduzida pelas abordagens multifactoriais, traduz-se frequentemente num conhecimento ambíguo, devido à falta de uma operacionalização correcta. Um exemplo paradigmático desta situação é dado pela definição de Silva: ”Sobredotado é todo indivíduo que apresenta capacidade acima da média em áreas diversas. Que podem surgir isoladas ou em combinação” (Silva, 1992) Nesta definição, suportada por critérios múltiplos, estão incluídos os indivíduos sobredotados intelectualmente, os criativos, os que possuem capacidade de liderança, capacidade psicomotora, competências sociais (interpessoais) e aqueles que apresentam um elevado rendimento escolar. O uso da mesma designação para sujeitos tão díspares, provoca necessariamente equívocos e arbitrariedades, que se reflectem na investigação e na educação. No domínio da investigação, criam-se dificuldades à construção de um modelo teórico fundamentado, pois é difícil comparar os resultados das diferentes investigações. Na área pedagógica, geram-se obstáculos à elaboração de políticas educativas conduzidas por objectivos programáticos, capazes de responderem  às necessidades específicas destes sujeitos.

São muitas as definições actuais que continuam a dar ênfase às  aptidões cognitivas na definição de sobredotação (Eysenck e Barret 1993; Kaufman, 1990; Parker, 1990; Terrasier, 1994; Benito, 1994 1996a; Humphreys, 1985 e outros).

Eysenck e Barret (1993) referem que a sobredotação, independentemente do modo como é interpretada envolve sempre o QI elevado, mesmo que algumas vezes ele não constitua a único “ingrediente”. Na opinião destes autores, o verdadeiro génio criativo e os talentos específicos excepcionais, são indissociáveis da inteligência elevada. Reconhecem que, por exemplo, a música ou a pintura podem ser consideradas aptidões únicas mas, quando trata de um verdadeiro génio, verifica-se uma mistura muito forte dessa aptidão com a inteligência. A questão teórica de base é a de saber se a sobredotação é um domínio específico ou uma característica geral.

Terrasier (1994) diz-nos que a criança sobredotada é caracterizada essencialmente pelo desenvolvimento intelectual precoce. Em sua opinião, os testes psicométricos continuam a ser o meio mais fiável de identificar e avaliar a precocidade de uma criança.

 

 

C.    Talento num domínio específico

Um segundo grupo de investigadores, estudam a sobredotação, no adulto ou na criança, atendendo o desempenho em domínios específicos e ao uso de medidas particulares de identificação (por exemplo, testes escolares de aptidão matemática). Dessa forma, contornam-se os problemas teóricos da definição, pois ela é feita de acordo com o objectivo de estudo. O Study of mathematically precocious Youth desenvolvido por Camilla Benbow e Julian Stanley na John Hopkins University e na Iowa State university, poderá ser considerado o protótipo desta estratégia de investigação (Benbow e Stanley, 1983a, 1983b; Benbow, 1988; Stanley, 1990) Obler e Fein (1988) e Bamberger (1986), também optam por este tipo de abordagem, apresentando o estudo de talentos, em domínios como a música ou a xadrez. Gardner (1983) é também um defensor desta definição de sobredotação. No seu modelo das múltiplas inteligências (já mencionado), refere que cada uma delas tem uma forma peculiar de memória, aprendizagem e percepção. Sendo assim, a aptidão numa determinada área da inteligência não se relaciona necessariamente com a aptidão noutras áreas.

 

 

II. NOVE MITOS ACERCA DA SOBREDOTAÇÃO

 

Segundo Ellen Winner, existe Nove Mitos acerca da Sobredotação:

 

Mito 1:   Sobredotação Global

Na maior parte das vezes, reserva-se o rótulo de sobredotação para crianças com dons académicos – ou seja, crianças sobredotadas na linguagem (oral e escrita)) e na Matemática,, duas das áreas mais importantes e valorizadas nas escolas. Psicólogos e educadores têm avaliado, normalmente, a sobredotação académica com um teste de QI, no qual se obtém um resultado global. Admitem-se crianças em programas escolares especiais para sobredotados, com base nos resultados do referido teste, tal como são aceite nos estudos psicológicos de sobredotados, e de acordo com o mesmo critério.

A asserção subjacente, neste caso, é a de que as crianças sobredotadas têm um potencial intelectual geral que lhe permite serem sobredotadas “em toda linha”.  Segundo Winner isto é o mito da sobredotação global. Porém a sobredotação escolástica não é, habitualmente, uma capacidade global que corresponda às duas áreas mais importante do desempenho escolar. A criança que apresenta uma combinação de pontos fortes e fracos a nível académico, revela ser a regra, não a excepção. As crianças podem, mesmo, ser sobredotadas em determinada área académica e ter uma aprendizagem deficiente noutra. Crianças muito sobredotadas revelam claramente, desde cedo, aos 2 ou 3 anos, aptidões específicas de um domínio. A especificidade das suas aptidões é uma forte indicação de que estas crianças têm uma predisposição para determinados domínios.

 

Mito 2:    Talentosos, mas não sobredotados 

          Enquanto as crianças que são precoces nas áreas de aptidão escolásticas avaliadas por um teste de QI são classificadas como sobredotadas, as crianças que apresentam uma capacidade excepcional numa forma de arte, tais como as artes visuais, a música, ou a dança, ou numa área atlética, tais como a patinagem, o ténis, ou o salto para a água são apelidados de talentosas. Dois rótulos diferentes sugerem crianças de duas categorias diferentes. No entanto, não há razão para tal distinção. As crianças sobredotadas no campo artístico ou no campo atlético não diferem das sobredotadas nos domínios académicos.

 

          Mito 3 :    QI Excepcional

          Apesar de crianças com uma grande aptidão para a arte ou para a música serem chamadas talentosas, ainda pensamos que não poderiam fazer o que fazem sem terem um QI elevado. “ A sobredotação, seja qual for o modo como é interpretada envolve, quase sempre, um QI elevado, ainda que este não seja considerado o único elemento”. É importante referir que os testes de QI avaliam uma pequena variedade de faculdades humanas e, em primeiro lugar, está a facilidade para a linguagem e para os números. Não existem provas suficientes de que a sobredotação em áreas não académicas, tais como as artes ou a música exija um QI excepcional. Podemos, mesmo, encontrar níveis extraordinários de sobredotação nos chamados sábios idiotas – indivíoduos, frequentemente autistas, com um QI ao nível do atraso mental, mas que tem aptidões específicas em determinados domínios.

         

Mitos 4 e 5 :    Biologia e Meio

          Como aparece a sobredotação? O mito dominante é o de que a sobredotação é inteiramente inata. Este mito popular ignora a poderosa sobredotação é inteiramente inata. Este mito popular ignora a poderosa influência do meio no desenvolvimento dos dons.

          Diametralmente oposta a esta perspectiva esta o mito, defendido pelos psicólogos, do que a sobredotação é apenas uma questão de treino intenso, ministrados pelos pais e educadores em terna idade. Segundo as palavras recentes de um psicólogo: “Com a energia e dedicação suficientes por parte dos pais, talvez não seja de todo difícil produzir uma criança prodígio.” Este tipo de informação sugere que os sobredotados nascem com cérebros normais, que são depois moldados de forma a se tornarem extraordinários. Esta noção rejeita o importante papel desempenhado pela biologia, em determinar se existe ou não um Dom susceptível de ser desenvolvido pelo meio.

 

          Mito 6:    A Pressão Parental

          Algumas pessoas afirmam que as crianças sobredotadas são “fabricadas” pelo desejo dos pais excessivamente zelosos de que os filhos obtenham o estrelato. Aconselha-se os pais a não os pressionarem, a deixarem que vivem uma infância “normal” . Caso contrário, dizem-lhes, sentir-se-ão ressentimentos em relação aos progenitores e perderão todo o interesse em atingir os objectivos.

          É verdade que os pais de crianças sobredotadas se envolvem bastante no desenvolvimento dos dons dos filhos. Porém, tal grau de investimento e envolvimento não é uma força destrutiva. É necessária, se se pretende desenvolver os dons de uma criança.

 

          Mito 7 :    Modelos de Saúde Psicológica

          Crianças sobredotadas enfrentam, muitas vezes, o ridículo e o escárnio, pelo facto de serem consideradas palermas e anormais. A maior parte das crianças destaca os solitários pouco atléticos e desajeitados, ou os exibicionistas com interesses estranhos desligados dos colegas. Os psicólogos têm contrariado esta opinião, dando das crianças com QI elevado uma imagem idealizada de popularidade, de uma boa adaptação social, possuidoras de um carácter moral excepcional e modelos de saúde psicológica. No seu discurso de 1922, na capacidade de presidente da American Psycological Association, Terman definiu as crianças sobredotadas não apenas como academicamente superiores, mas também “ superiores às outras crianças a nível físico, na saúde e na capacidade de adaptação social, (e) caracterizadas por atitudes morais superiores, que se podem avaliar através de testes de personalidade”

          No entanto, os preconceitos infantis talvez tenham fundamento. Temos, aparentemente, uma necessidade quer de negar, quer de idealizar a criança sobredotada. Com frequência, os sobredotados são socialmente isolados e infelizes, a não ser que tenha a sorte de encontrar outros como eles. A imagem da criança sobredotada bem adaptada aplica-se apenas, às moderadamente sobredotadas, e não aos casos extremos.

 

 

Mito 8 :    Todas as Crianças são Sobredotadas

Muitos directores escolares e professores afirmam que todas as crianças são dotadas. Por vezes, isto quer dizer que todas possuem algumas áreas nas quais tem pontos fortes; outras vezes, significa que todos têm um potencial de aprendizagem igual. Esta asserção não se faz apenas em relações a aptidões académicas.

A noção sociológica do conceito de sobredotado tem, por vezes, conduzido à conclusão de que este fenómeno é apenas uma ideia concebida pela sociedade para justificar o elitismo.

Segundo Winner, ninguém parece importar-se com o facto de que as crianças sobredotadas para a música frequentam, muitas vezes, classes avançadas fora da escola. Porém, a opinião segundo a qual todos os alunos são dotados, no que diz respeito às aptidões escolares, gera tomadas de posição inflexíveis contra qualquer forma de educação especial para sobredotados. Reagindo a isto, os pais de sobredotados voltam-se para grupos de apoio e queixam-se da discriminação a que estão sujeitos os filhos, devido a um igualitarismo mal gerido e de como isso os torna tensos, bem como aborrecidos. Segundo este autor quando se dá educação especial para sobredotados, esta é mínima e adequada para os moderadamente sobredotados.

 

Mito 9 :    Crianças Sobredotadas tornam-se Adultos Proeminentes

A sobredotação é geralmente vista como um sinónimo, não apenas de QI elevado, mas também de grande criatividade.

As crianças sobredotadas são normalmente consideradas não são criativas, mas também futuros adultos proeminentes e criadores. Contudo, muitas crianças sobredotadas, especialmente prodígios, acabam por se extinguir, enquanto outras se mudam para diferentes áreas de interesse. Algumas, apesar de serem extremamente bem sucedidas, nunca fazem nada de genuinamente criativo. Apenas muito pouco sobredotados se tornam adultos proeminentes e criadores. Não podemos estabelecer uma ligação entre a sobredotação precoce, ainda que extrema, e a proeminência de adulto. Os factores que fazem prever o curso de uma vida são múltiplos e interactivos. A personalidade, a motivação, o ambiente familiar, a oportunidade e a sorte desempenham papéis muito mais importante que o nível de aptidão.

 

III. MITOS E REALIDADES

 

Precisamente por pouco ainda se conhecer sobre este tipo de crianças, criam-se alguns mitos sobre elas.

 

Mitos                                                            Realidades

Tem sempre bons resultados nos                  Muitas vezes as crianças sobredotadas têm

Testes de inteligência                                    uma forma tão original de analisar as

questões que lhes põem, e de lhe dar           resposta, que as leva a responder de uma forma considerada desadequada ao teste.

Assim terão muitas vezes resultados baixos nos testes estandardizados.

 

São excepcionais em tudo e                          Embora se possam interessar por muitas

rápidas na execução de qualquer                  coisas, não são forçosamente excepcionais

tarefa                                                             em tudo. Podem ter dificuldades em certas

áreas e até serem lentas na execução de tarefas.

 

Terão sucesso sozinhas e indepen-                Têm potencialidades mas poderão não as

dentemente dos factores ambientais               desenvolver e até evitar manifestá-las

devido, na maior parte dos casos, às    condições ambientais. Muitas delas abandonam a escola por aí, não encontrarem respostas às suas necessidades.

 

São uma minoria privilegiada no                    Estas crianças sentem-se diferentes da

meio onde vivem                                             maioria. No entanto, a sua diferença

                                                                          torna-as desconfortáveis para os outros

                                                                          que sabem menos que elas. Assim são

                                                                          muitas vezes crianças isoladas e sem

                                                                         amigos.

 

Têm características idênticas entre si              Tal como as outras pessoas também elas

e são um grupo homogéneo                             são diferentes entre si, por exemplo na

personalidade, nos interesses, nas     competências, nas características e na forma como as manifestam e lidam com elas.

 

Trabalhar de maneira diferente com                 Pouco democrático é dar a mesma

as crianças sobredotadas é criar uma                educação a todos e não respeitar as

elite, não é democrático                                    individuais.

 

 

 

IV. DIFERENÇAS QUE CARACTERIZAM AS CRIANÇAS SOBREDOTADAS

 

O educador e o professor têm um papel importante a desempenhar no desenvolvimento das crianças sobredotadas tal como no de qualquer criança com que lidam.

Deveram estar atentos e observar a criança nos seus vários aspectos, em vários momentos da sua vida diária e confrontar os seus dedos de observação com as informações dos pais, com resultados de outros meios de recolha de dados (por exemplo, testes de inteligência, de aptidões, provas de criatividade,…) e de outros técnicos (por exemplo, no caso de uma criança mostrar aptidões especiais no campo das artes, deve procurar-se a opinião de um especialista de arte).

Nenhuma conclusão deve ser tirada unicamente a partir de um determinado tipo de dados.

As capacidades especiais destas crianças, demonstradas ou potenciais, podem ser perceptíveis através de sinais que mostram:

 

A .   Desenvolvimento precoce – podem atingir os estádios do desenvolvimento mais cedo do que as outras crianças. Por exemplo, uma criança de 2 ou 3 anos que começa a contar histórias a partir de livros de imagens, ou que, pelos 3, 4 anos, deseja insistentemente aprender a ler e o consegue, por vezes sozinha, pode ser sobredotada intelectualmente. Outra que atinja elevado nível de coordenação motora muito cedo pode ser fisicamente talentosa.

 

B .   Perfeição fora do comum – manifestam elevada perfeição em determinada actividade comparando com outras crianças da mesma idade. Por exemplo, uma criança que memoriza um poema rapidamente, que atinge um conceito mais cedo ou resolve problemas com maior rapidez pode ser potencialmente dotada. Igualmente o pode ser outra que mostre uma qualidade de voz não usual, elevada sensibilidade à cor e forma, invulgar perspicácia social e capacidade de lidar e organizar os outros, ou invulgar capacidades físicas.

 

C .   Criatividade invulgar – combinam ideias ou materiais de forma única para conseguirem novos produtos. Por exemplo, uma criança que compõe canções ou músicas novas, que desenvolve novas figuras, estruturas ou modelos, que enfrenta e resolve situações problemáticas de forma própria e invulgar, poderá ser potencialmente talentosa.

Certos grupos de crianças ou jovens têm maior dificuldade em expressar os seus talentos, muitas vezes por razões essencialmente exteriores a elas. Estão neste caso as crianças de meios culturalmente diferentes (minorias culturais, ou com problemas socio-económicos), as crianças com deficiências, podendo acontecer igualmente com as raparigas. Os seus talentos poderão não ser reconhecidos como tal e portanto não serem desenvolvidos.

 

 

V . DIFERENÇAS SEGUNDO O SEXO

 

Contudo, o talento matemático difere, também do talento verbal, segundo a marcante disparidade em relação ao sexo, que encontramos no topo da escala da aptidão matemática, mas não de aptidão verbal. Entre os adolescentes de 13 e 14 anos de idade, que realizaram as partes verbais e matemáticas do Scholastic Apitude Teste ( SAT) integrado na procura de talentos para o  Study of Mathematically Johns Hopkins (SMPY), constata-se uma grande diferença em relação à parte matemática, mas não em relação à parte verbal. (Só aqueles que obtiveram os resultados mais elevados nos testes matemáticos e verbais, usualmente administrados na escola, se qualificaram para o SAT integrado na procura de talentos. Qualificaram-se nesta fase aproximadamente o mesmo número de raparigas e rapazes.) Os rapazes atingiram cerca de meia unidade de desvio padrão acima das raparigas, na parte matemática do SAT, e a vantagem era particularmente grande a um nível superior. A relação entre rapazes e raparigas, no que diz respeito a resultados elevados, é de 2 para 1, para aqueles que atingiram resultados iguais ou superiores a 500; de 4 para 1, para os que obtiveram resultados iguais ou superiores a 600; é de 13 para 1, para aqueles cujo resultado foi igual ou superiores a 700. Estas diferenças quanto ao sexo persistem após os primeiros anos de adolescência e tem relação com o desempenho futuro na matemática e nas ciências, no liceu e na universidade. Estas diferenças, aos 12 e 13 anos, não podem dever-se ao facto de os rapazes terem tido mais aulas de Matemática, visto que nesta altura todos os estudantes frequentam o mesmo número de aulas. No entanto, tais diferenças podem dever-se, pelo menos em parte, as diferenças de sexo no domínio da aptidão espacial.

Apesar do facto de, em todos os diversos países testados, se ter encontrado uma diferença sexual que favorece os indivíduos masculinos, a dimensão desta diferença é substancialmente mais baixa num grupo em especial: os Asiáticos. Quer fossem testados estudantes chineses em Shangai ou estudantes americanos de origem asiática, a relação entre rapazes e raparigas, relativamente entre resultados compreendidos entre 700 e 800, era apenas de 4 para 1. Deste modo, talvez a cultura desempenha um papel significativo, no que diz respeito à aptidão matemática. È possível que a atitude em relação às raparigas na matemática seja mais positiva entre os Asiáticos e que se espere que os estudantes de ambos os sexos possuam um bom desempenho na matemática.

Parece claro que a variabilidade é mais a regra do que a excepção. É certo que os sobredotados globais existem. No entanto, os perfis variáveis são mais comuns. As diferenças subjacentes às diversas aptidões são diferenças no modo como as informações são processadas e memorizadas. Nos casos extremos, as crianças sobredotadas em algumas áreas académicas, mas possuem dificuldades de aprendizagem noutras. A imagem regular e uniforme da criança globalmente sobredotada dá, assim, lugar a uma imagem mais complexa e irregular do indivíduo singularmente sobredotada.

 

VI.           A BIOLOGIA DA SOBREDOTAÇÃO

 

No que se refere à origem da sobredotação, existem dois mitos diametralmente

opostos. A psicologia popular afirma que a sobredotação é inteiramente inata: ou se tem ou não se tem. As aptidões de Mozart, de Picasso, de Newton ou de Einstein são tão impenetráveis ao nosso entendimento que as explicamos dizendo que estes indivíduos nasceram génios. O meio não desempenha um papel interessante, se os talentos forem inatos e em grande medida fixos.

É claro que esta explicação não se revela muito esclarecedora, a não ser que consigamos determinar como e porquê os indivíduos sobredotados são congenitamente diferentes. Os psicólogos gostam de desacreditar a psicologia popular e o tema da sobredotação não foge à regra. No entanto, estes também têm o seu próprio mito: o de que a sobredotação é totalmente produto do meio. Argumentam que um treino intensivo, iniciado numa idade precoce, é suficiente para explicar até mesmo os casos mais extremos de sobredotação – As crianças prodígio, os sábios ou os adultos criadores.

Alguém disse: “ afirmar que todos os êxitos se devem inteiramente a um regime de treino correcto é regressarmos à,  actualmente desacreditada corrente behaviorista que dominou a psicologia na primeira metade do século XX. “ Todavia a uma explicação ambiental para a sobredotação está a ganhar terreno, hoje em dia, entre alguns psicólogos experimentais interessados na aprendizagem.

Consideremos os argumentos a favor de uma influência ambiental decisiva. Benjamin Bloom, que estudou indivíduos mundialmente reconhecidos em vários domínios, tais como a matemática, a arte, a música e o desporto, constatou que nenhum dos seus casos teria atingido a excelência sem um ambiente incentivador e encorajador, incluindo um período de treino longo e intenso, incutidos em primeiro lugar por professores dedicados e em segundo por mestres exigentes e rigorosos.  Este estudo é frequentemente evocado como uma forte evidência de que os adultos proeminentes eram, à partida, crianças perfeitamente normais que possuíam pais dedicados e professores que as motivaram para o trabalho longo e árduo.

O trabalho do psicólogo Anders Ericsson forneceu provas adicionais, que são usados para apoiar o ponto de vista ambiental. Ericsson demonstrou que os níveis de êxito obtidos nas áreas do piano, do violino, do xadrez, do brídege e do desporto estão altamente correlacionados com a pura “prática deliberada” na qual os indivíduos se envolvem. Aqueles que passam mais tempo a resolver repetidamente problemas difíceis, para se aperfeiçoarem (a prática deliberada), são aqueles que atingem resultados mais elevados. Para além disso, nos casos de música, da dança e do xadrez, Ericsson descobriu que quanto mais elevado fosse o nível de desempenho atingido mais cedo o indivíduo se havia exposto a esse domínio e, assim, mais precocemente havia exercido uma prática deliberada.

É claro que o trabalho diário melhora o nível de competência e é necessário para o desenvolvimento do talento. Segundo as palavras do psicólogo Howard Gruber, que estudou adulto criativos, tais como Charles Darwin e Jean Piaget, “ A prática não é tudo, mas pode estar em todo o lado.” No entanto o desejo de trabalhar arduamente em determinada actividade, de praticar e explorar durante longas horas surge do interior, não do exterior. Esta motivação intrínseca ocorre quando existe uma aptidão elevada e inata, desde que haja suficiente encorajamento e apoio por parte dos pais. A ânsia de domínio é uma parte inevitável do talento.

Deste modo, apesar de investigadores, tais como Bloom e Ericsson, terem demonstrado a grande importância do trabalho que efectuaram, as suas descobertas não permitem excluir o papel da aptidão inata. Ocasionalmente encontram-se exemplos de trabalho intensivo na ausência de talento inato.

Em resumo, o mito dos psicólogos segundo o qual os prodígios seriam fabricados pelos adultos não tem fundamento. O trabalho intensivo não é suficiente e as crianças precoces são meros servos. Não são as crianças comuns que se sabem trabalhar intensamente. Não só não conseguimos que as crianças comuns passem várias horas por dia a desenhar, como, ainda que o conseguíssemos, tal como na China ou no Japão, estas crianças não alcançariam, apenas com instrução, os resultados que as crianças não alcançariam, apenas com instrução,  os resultados que as crianças precoces atingem sozinhas.

Então e a opinião comum segundo a qual os talentos especiais seriam inatos? Na sua forma extrema, essa opinião também  é errada.

 

VII.  SERÁ SOBREDOTAÇÃO HEREDITÁRIA ?

 

Costumava pensar-se que bastava demonstrar-se que determinada característica era comum a uma família para se concluir que essa particularidade seria hereditária. Por exemplo, num dos primeiros livros dedicados à sobredotação, Hereditary Genius: Na Inquiry into Its Laws and Consequences, Francis Galton examinou 100 importantes figuras históricas masculinas, tais como Darwin, Bach e Newton, bem como os irmãos e descendentes masculinos. Constatou que 23 por cento dos irmãos e 36 por cento dos filhos destes homens ilustres também alcançavam a eminência, numa proporção bem mais elevada do que a sua estimativa relativa à população normal, 1 para 400. Galton concluiu que o génio era inerente à família e, deste modo , seria geneticamente transmitido. Terman também reparou que os familiares mais chegados das crianças que apresentavam um QI elevado também eram intelectualmente superiores e concluiu que a sobredotação era inata.

No entanto as conclusões de Galton e de Terman não foram comprovadas, dado que os membros das famílias partilham o meio e os genes. Mais recentemente, cientistas genéticos behavioristas tentaram dissociar os efeitos dos genes e do meio. Compararam gémeos idênticos e gémeos falsos para estabelecer a concordância de determinado talento, isto é, até que ponto essa característica estava presente nos dois membros do par de gémeos. Uma taxa de concordância mais elevada nos gémeos verdadeiros indicaria uma contribuição genética para o talento em estudo, na medida em que os gémeos verdadeiros partilham todos os seus genes, enquanto os falsos, tal como os irmãos comuns, partilham apenas metade. O “quociente de hereditariedade” é uma medida para avaliar a correlação entre as diferenças genéticas e as diferenças de aptidão observadas no seio de um grupo.

Contudo, uma maior semelhança entre os gémeos verdadeiros do que entre gémeos falsos, talvez também seja devida a algum factor ambiental, dado que os gémeos verdadeiros podem criar para si próprios um meio mais similar simplesmente porque se identificam como idênticos. Um método consiste em comparar a concordância de uma aptidão em gémeos verdadeiros criados separadamente e a mesma concordância em crianças adoptadas criadas em conjunto. Assim, podemos comparar os gémeos geneticamente idênticos colocados em meios diferentes e crianças geneticamente diferentes criadas num meio idêntico. Usando a mesma lógica, podemos também observar as taxas concordância entre as crianças adoptadas e as famílias adoptivas por um lado e a família biológica por outro.

Os estudos dedicados aos gémeos ensinaram-nos muito acerca da hereditariedade do QI, mas pouco sobre a hereditariedade de  aptidões específicas, tais como a música, a arte, a matemática ou a linguagem. A comparação entre os gémeos verdadeiros e falsos forneceu, de qualquer modo, argumentos a favor da hereditariedade do talento musical, demonstrando a existência de uma componente genética desse talento. Todavia, sabemos muito mais acerca da hereditariedade  do QI. A maior parte dos estudos de QI envolveram apenas populações seleccionadas geralmente, não populações detentoras de QI elevado. Assim, o que podemos dizer quanto à hereditariedade de um QI elevado constitui, em grande medida, uma extrapolação a partir de descobertas relacionadas com a hereditariedade do QI comum.

A maior parte dos estudos demonstraram que o QI é ( não a cem por cento) hereditário.  Por exemplo, a correlação média entre os QI de gémeos verdadeiros é de 0,86, enquanto a dos gémeos falsos é de 0,60. Se os gémeos foram criados separadamente, a correlação continua elevada, até 0,75 e mesmo 0,78. As aptidões específicas, tais como o raciocínio verbal, o raciocínio espacial e a memória visual também produzem um alto quociente de hereditariedade. Visto que as correlações estatísticas variam entre –1,0 (correlação negativa perfeita) e +1,0 (correlação positiva perfeita), estas correlações são impressionantemente elevadas.

Surpreendentemente, os quocientes de hereditariedade para o QI não baixam com a idade e experiência – o que se verifica é exactamente o quanto a influência genética se torna mais forte. Assim, parece que o meio imposto a uma criança afecta o seu QI enquanto essa criança for pequena e viver em casa, mas parece diminuir a sua importância logo que a criança cresce, vai para fora de casa e escolhe um meio compatível com as aptidões inatas.

Também se pode comprovar a existência de uma influência genética no que se refere ao QI elevado. Os cientistas genéticos behavioristas Robert Plomin e Lee Ann Thompson compararam gémeos verdadeiros e gémeos falsos escolhidos em função de critério preciso, a partir de uma grande amostra de gémeos falsos escolhidos em função de um critério preciso, a partir de uma grande amostra de gémeos: pelo menos um membro de cada par de gémeos devia possuir um QI elevado, apresentando um desvio padrão superior de, número, 1,25 em relação ao QI médio de todos os gémeos e grupos. Os gémeos verdadeiros eram muito mais susceptíveis de possuírem ambos um QI elevado (62%) do que os gémeos falsos (25%), o que indica uma influência genética sobre o QI elevado.

Segundo Winner o forte grau de hereditariedade de um determinado traço não significa que esse mesmo traço não possa ser modificado. Ninguém alguma vez revelou um factor genético de talento tão forte que seja invulnerável ao enriquecimento ou empobrecimento do meio. A altura, por exemplo, é afectada pela nutrição. Ainda assim, as diferenças de aptidão inatas devem impor um limite à natureza e à amplitude da modificação que é possível ser efectuada pelo meio. Recordemos Charles, que desenhava tantos comboios. Devido à falta de um Dom inato, a prática não o conduziu a progressos espectaculares.

Devemos recordar que a hereditariedade apenas nos indica até que ponto as diferenças entre as pessoas estão associadas às diferenças dos seus genes. Todavia, efectuaram-se tantos estudos minuciosos em gémeos, demonstrando um grau de hereditariedade razoavelmente forte em relação à inteligência e até mesmo à personalidade que seria insensato negligenciá-los e concluir que os genes nada têm a ver com a nossa inteligência ou personalidade. Uma das descobertas mais marcantes é a de que o grau de hereditariedade da inteligência aumenta com a idade, uma descoberta que não é facilmente explicável em termos ambientais.

 

CONCLUSÃO:

 

Neste momento, pensamos que os progressos no conhecimento da sobredotação ou do desenvolvimento excepcional, estão dependentes da uniformização de linguagens, que permitam a comparação e a réplica dos resultados nos diferentes subdomínios. Pois, até agora, sob a tutela da mesma designação (sobredotado) têm-se desenvolvido muitos trabalhos acerca de entidades díspares. Cramer (1991), Gallagher e Courtright (1986), Hallaham e Kaufman (1982), Milgram (1991), Renzulli (1986), Shore e Kanevski (1993), Sternberg e Davidson (1993), Tannenbaum (1986), Winner (1996) e muitos outros, ponderaram o uso de “nomenclaturas” diferentes para os diversos tipos de desenvolvimento excepcional.

As crianças sobredotadas são crianças prodígios, crianças que realizam actividades fora de comum para as suas idades (desempenho adulto) sem que tenham um treino intensivo nessas competências. Daí as crianças prodígios são em número muito reduzido, dificultando a aquisição de conhecimento nesta área e restringindo as investigações. Apenas se sabe que esses sujeitos apresentam vantagens do ponto de vista hereditário e ambiental, elevada motivação intrínseca e auto-confiança.

Mais viu-se durante esse trabalho que neste momento coexistem (nem sempre de forma pacífica)  diversa definições de sobredotado, umas claramente muito vagas, outras, indubitavelmente, mais satisfatórias. Ainda que nenhuma delas reuna um consenso universal, é notório o poder aglutinador do critério de QI: escore igual ou superior a 130. É esse critério que continua a prevalecer na decisão de uma criança aceder ou não a um programa educativo especial, apesar da diversidade de modelos e das suas diferentes inspirações teóricas. Por outro lado, o uso da mesma designação (sobredotado) para entidades tão dispares é gerador de confusão, devendo proceder-se à operacionalização criteriosa de todas as terminologias.

Conforme alguns estudos a percentagem de indivíduos sobredotados na população escolar geral situa-se entre os 0,5% e os 20%  . Na população total situar-se-á entre os 8% e os 10%. Contudo uma grande percentagem de crianças sobredotadas não chegam sequer a ser descobertas, nomeadamente:

         Crianças de meios sócio-económicos desfavorecidos;

         Crianças que têm de abandonar a escola por diversos motivos;

         Crianças cujos problemas emocionais escondem as suas capacidades  intelectuais.

Em Portugal, integrado no Instituto da Inteligência, há um centro de diagnóstico

e orientação de crianças talentosas e sobredotadas, que se debruça especificamente sobre o estudo destes casos.

Actualmente, está em curso um estudo longitudinal com crianças sobredotadas portuguesas com o fim de clarificar as características desta população específica.

É sempre bom referir que a abordagem desenvolvimentista da sobredotação poderá, igualmente, trazer contributos relevantes para a formação de conhecimentos nesta área, principalmente através da metodologia longitudinal que preconiza. Através dela poderão esclarecer-se questões teóricas e práticas importantes. Mais, a metodologia longitudinal, também permitirá sinalizar os factores ambientais e pessoais mais relevantes, capazes de manterem a continuidade do desenvolvimento excepcional. Acredita que uma maior compreensão do desenvolvimento excepcional só será conseguida através do estudo intensivo de um pequeno número dessas pessoas (estudos de caso). Na sua perspectiva, a excepcionalidade só é atingida quando o indivíduo coloca em acção todos os seus recursos individuais e reconhece a importância das circunstâncias sociais e históricas que definem a ecologia individual.

Em termos de conclusão é de se referir que a investigação desenvolvimentista caracteriza-se, sobretudo, pela ênfase que concede às variáveis ambientais no desenvolvimento do talento. Reconhece-se que a sobredotação só se desenvolve em ambientes específicos, havendo muito talentos que nunca chegam a manifestar o seu potencial por falta de recursos envolvimentais. Porém, também se admite, que esses recursos e o treino intensivo não são condições suficientes para a manifestação do desempenho extraordinário.

 

BIBLIOGRAFIA

 

Winner, Ellen, Crianças Sobredotadas, Mitos e Realidades, Instituto Piaget, 31 de Dezembro de 1999.

Pereira, Marcelino Arménio Martins, Crianças Sobredotadas,

Coimbra, 1998

A Criança Diferente, Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação, Setembro 1987

6 respostas a CRIANÇAS SOBREDOTADAS

  1. – Criança sobredotada que possui blogue com assuntos para crianças:

    http://br.youtube.com/results?search_query=D%C3%A9bora+Caracol

  2. natalia diz:

    bom tenho apenas 13 anos e sei desenhar mangás plantas de casas o melhor aprendi sósinha com 7 anos.

  3. Elisio diz:

    Oi Mestre, recebes na proporção aritmética e das na geométrica, és incansável. Pertinentes artigos.I follow you, Força!

    ETM

    • dufreire diz:

      Obrigado caro colega, não faço nada de mais se não repartir o pouco que tenho com o meu semelhante. É um dever de todos nós. I miss you! Um abraço

  4. adriana rodrigues andrade diz:

    E normal uma criança de sete nesse desse do curralzinho sozinha e com dois anos esta prelcupada com o aquecimento global hoje com 3 anos sabe as cores e fala palavras como obstaculo,muto enteresanti,muito obrigado,porfavor e muito mais sem erra.
    deisdeja muito obrigado

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